sábado, 3 de setembro de 2011

Medicamentos para dor e febre fazem mal para o fígado?

“Meu marido está com problemas no fígado, apresentando taxas alteradas, e o médico pediu para ele não tomar medicamentos (pois são metabolizados no fígado). O que eu faço em casos de dores de cabeça e febre? Existe algum medicamento que seja menos ofensivo ao fígado? Existe outra alternativa como produtos naturais?

A grande maioria dos medicamentos passa por uma transformação no fígado, o que altera algumas de suas propriedades, facilitando que eles sejam eliminados do organismo. Esse processo é denominado metabolização e é resultado da ingestão dos medicamentos, que são substâncias estranhas ao nosso organismo e precisam ser eliminadas para não causarem prejuizos ao nosso corpo. Entretanto existem algumas substâncias que não são transformadas no fígado, sendo eliminadas da mesma forma que entraram no organismo. Medicamentos com esse perfil são mais indicados para pacientes que possuem o fígado sobrecarregado.

Infelizmente, os medicamentos considerados como analgésicos e antitérmicos (indicados para controlar a dor e a febre, respectivamente - conhecidos também como anti-inflamatórios não esteróides) são extensamente transformados pelo fígado. Aproximadamente, menos de 5% da quantidade inicial ingerida é eliminada na forma ativa. Por essa razão, a decisão de usar qualquer analgésico e antitérmico, substâncias anti-inflamatórias, vem da análise entre os benefícios e os riscos do uso do medicamento. Nesse caso, é importante que os benefícios (melhoria dos quadros de dor e febre, por exemplo) sejam maiores que os efeitos indesejáveis (muitos deles relacionados à sangramentos e dor no estomâgo e lesões hepáticas).

Exames bioquímicos realizados através da análise do sangue podem determinar como o fígado está trabalhando. As transaminases, enzimas responsáveis pela metabolização que ocorre no interior das células do fígado, são consideradas essenciais para a análise desse orgão. Quando o fígado está sobrecarregado, ocorre liberação dessas enzimas do interior das células para a corrente sanguínea, aumentando seus níveis na circulação. O diagnóstico dessa sobrecarga, isto é, o controle da atividade do fígado está mais relacionado aos exames bioquímicos do que à simples avaliação dos sinais e sintomas no paciente. Os anti-inflamatórios não esteróides devem ser suspensos nas seguintes situações: aumento das aminotransferases, uma das transferases, maior que três vezes o valor de normalidade; diminuição da concentração da albumina (proteína produzida pelo fígado que se liga aos medicamentos na corrente sanguínea) ou se o tempo de protrombina (parâmetro da coagulação do sangue - relacionado à função do fígado) estiver prolongado.

Deve-se ter um cuidado especial em relação aos produtos naturais (prepações como chás, infusões e extratos a partir de plantas que tenham, ou não, ação comprovada), pois grande parte das substâncias extraídas das plantas sofre extensa transformação pelo fígado. Dessa maneira, a análise risco-benefício deve ser avaliada para cada substância.

O médico deve solicitar os exames bioquímicos de controle e monitorização do fígado e através da avaliação do estado desse orgão, o profissional pode propor tratamentos e outras abordagens para amenizar a sobrecarga hepática. Em alguns casos, como quando não é possível aliviar o fígado, o médico pode fazer o ajuste da dose do medicamento, reduzindo, por exemplo, a quantidade ingerida pelo paciente.


Referências:
Jones, A. Over-the-counter analgesics: a toxicology perspective. Am J Ther. v.9(3), 2002.
Monteiro, E.C.A., et al. Os antiinflamatórios não esteroidais (AINEs). Temas de Reumatologia Clínica. v.9, 2008.

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