sábado, 24 de setembro de 2011

O uso não indicado dos medicamentos

“Li na revista Veja uma reportagem sobre os efeitos da liraglutida na perda de peso. Gostaria que vocês me ajudassem com relação a essa novidade para o tratamento da obesidade. Como essa substância age na redução do peso e no controle do diabetes? Quem usa a droga e não é diabético pode ter hipoglicemia?”

Cada medicamento registrado no Brasil recebe aprovação da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para uma ou mais indicações de uso, as quais passam a constar na sua bula. A aprovação desse registro para qualquer indicação se resume na qualidade, na eficácia e na segurança do medicamento, sendo as duas últimas baseadas na avaliação de estudos clínicos que avaliam a extensão do efeito provocado no organismo, toxicicidade, interações medicamentosas, efeitos na gravidez, alteração de outros parâmetros fisiológicos, etc.

Entretanto, quando um medicamento é aprovado para um determinado uso, isso não implica que essa seja a única indicação possível, e que o medicamento só possa ser usado para ela. Outras indicações podem estar sendo, ou vir a serem estudadas, as quais, que quando submetidas à Anvisa e terminados os estudos, poderão vir a ser aprovadas e passar a constar na bula do medicamento. As indicações que ainda não foram aprovadas (ou estejam em processo de aprovação porque já tem estudos clínicos completos, por exemplo) pela Agência Regulamentadora, são reconhecidas no meio médico como off-label. A indicação off-label podem ocorrer e ser diferente das indicações previstas na bula em relação à dose, faixa etária, via de administração, contra-indicação e frequência de uso, que de modo prático, vem de um uso não avaliado, corretamente e formalmente, ou seja, sem evidências científicas.

Tal fato já aconteceu, vem acontecendo e acontecerá com vários medicamentos disponíveis no mercado. Exemplo disso é o Viagra® (Produzido pelos Laboratórios Pfizer Ltda) que foi desenvolvido para combater problemas no coração e acabou sendo indicado e aprovado para uso na disfunção erétil.

Hoje, o que está em alta, é o uso não indicado em bula da liraglutida (Victoza®, produzido pelo Novo Nordisk Farmacêutica do Brasil Ltda), substância recentemente aprovada para uso no tratamento do diabetes tipo 2 (saiba mais sobre diabetes clicando aqui) na Europa (2009), nos Estados Unidos (2010) e no Brasil (2011). Essa substância está sendo prescrita, de maneira off-label no Brasil, como terapia para a obesidade, auxiliando na redução e controle do peso corporal, mesmo em indivíduos não portadores da diabetes tipo 2.

A liraglutida é uma substância análoga ao peptídeo semelhante ao glucagon (Glucagon-like peptide, GLP-1). O GLP-1 é produzido pelo próprio organismo pelas células intestinais após a alimentação, estando relacionado ao metabolismo de açúcares e gorduras. O GLP-1 é capaz de aumentar a secreção de insulina pelo pâncreas, diminuir a secreção de glucagon também pelo pâncreas, atrasar o esvaziamento gástrico e diminuir o apetite. No entanto, esse peptídeo é rapidamente degradado por uma enzima específica que é localizada em várias partes do nosso corpo (do sistema digestório ao sistema nervoso central), por essa razão seu efeito dura em média 2-5 minutos. A liraglutida, que possui algumas modificações, mas é semelhante ao GLP-1 do organismo, tem duração do efeito maior, em média de 24 horas. Dessa maneira ela age de modo semelhante ao GLP-1 só que por mais tempo, ou seja, exarcebando o efeito dessa biomolécula.

A indicação dessa substância para o tratamento da diabetes tipo 2 se baseia na maior liberação de insulina na corrente sanguínea, abaixando os níveis de glicose, o “açúcar” do sangue, quando esses níveis estão acima dos valores normais - como ocorre após a alimentação. Abaixando também a secreção do glucagon (hormônio que controla a liberação de glicose na corrente sanguínea, quanto menor sua concentração menor o valor da glicemia), a liraglutida é capaz de controlar a glicemia. Dessa maneira, tem-se que a hipoglicemia (diminuição da concentração sanguínea da glicose) é uma reação comum (aparece em 1-10% dos pacientes), sendo agravada quando usado com outros medicamentos da classe das sulfonilureias, por exemplo a glibenclamida.

A substância presente no medicamento Victoza®, também age no sistema nervoso, reduzindo a fome, isto é, a ingestão de comida por promover sensação de saciedade e aumentar o tempo de deslocamento da comida ao longo do trato gastrointestinal. É por essa razão que a liraglutida vem reduzindo o peso dos pacientes com Índice de Massa Corporal [IMC = peso em kg/altura x altura em metros] entre 30 a 40, quando associado a uma redução média de 25% das calorias ingeridas diariamente junto com a prática de exercícios físicos (Astrup A, et al. Lancet. v. 375(9719), 2010). Estudos clínicos estão sendo executados e em breve teremos um panorama mais amplo para avaliar melhor a segurança e eficácia desse medicamento nos casos de obesidade. Hoje o que se sabe é que a curto prazo ela provoca naúseas, vômitos e dor de cabeça, efeitos adversos mais comuns citados no principal estudo realizado com a liraglutida no tratamento da obesidade em 2010.

A ANVISA divulgou uma nota informando e alertando que o medicamento Victoza® “não é indicado para emagrecimento” e que seu uso para “qualquer outra finalidade que não seja como antidiabético caracteriza elevado risco para a saúde”. Portanto, devemos esperar a condução de mais estudos e trabalhos que determinarão os parâmetros de eficácia e segurança, para que esse medicamento seja efetivamente (ou não) indicado para o controle do peso corporal. Segundo a ANVISA, não há, até o momento, solicitação por parte da empresa detentora do registro a extensão da indicação do produto para o tratamento da obesidade ou além do tratamento para diabetes. Ela informa também, que não foram apresentados estudos que comprovem qualquer grau de eficácia ou segurança do uso do produto Victoza® para redução de peso e tratamento da obesidade.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária, baseada nos relatórios de farmacovigilância, que são realizados durante a comercialização da nova droga (conhecido como PSUR [Relatório Periódico de Farmacovigilância]), também retransmitidos por outros alertas de vigilâncias mundiais como FDA nos Estados Unidos, EMEA na Europa, informa que a liraglutida pode alterar a função renal, causar desidratação, alterar a tireóide (alguns casos associados a tumor da célula T da tireóide), além de aumentar o risco de pancreatite.

Finalizando, sabemos que a melhor indicação - a mais saudável - para controlarmos o peso corporal é conciliar atividade física regular com um plano alimentar balanceado. Nosso metabolismo é uma balança, logo, para reduzirmos e controlarmos nosso peso, devemos gastar mais calorias do que ingerimos diariamente.



Referências:

  • ANVISA. Registro Off-Label de Medicamentos. Brasília, 2005. Disponível em: http://www.anvisa.gov.br/medicamentos/registro/registro_offlabel.htm
  • ANVISA. Esclarecimentos sobre medicamento Victoza. Brasília, 2011. Disponível em: http://migre.me/5LZCy
  • STAFFORD, R. S. Regulating Off-Label Drug Use - Rethinking the Role of the FDA. The New England Journal of Medicine, v. 358(14), 2008.
  • Product Information: VICTOZA solution for subcutaneous injection, liraglutide rDNA origin solution for subcutaneous injection. Novo Nordisk, Inc, Princeton, NJ, 2010.
  • Garber A, Henry RR, Ratner R, et al: Liraglutide, a once-daily human glucagon-like peptide 1 analogue, provides sustained improvements in glycaemic control and weight for 2 years as monotherapy compared with glimepiride in patients with type 2 diabetes. Diabetes Obes Metab. v. 13(4), 2011.
  • Astrup A, et al. Effects of liraglutide in the treatment of obesity: a randomised, double-blind, placebo-controlled study. Lancet. v.375(9719), 2010. Disponível em http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19853906
  • Baggio LL, Drucker DJ. Biology of incretins: GLP-1 and GIP. Gastroenterology. v. 132(6), 2007.
  • Tharakan G, Tan T, Bloom S. Emerging therapies in the treatment of 'diabesity': beyond GLP-1. Trends Pharmacol Sci. v. 32(1), 2011.

Um comentário:

  1. Obrigada pela resposta. É sempre bom contar com o conhecimento de especialistas, mesmo que a mídia indique outro caminho.

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