quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Conhecendo melhor os betabloqueadores

“Sou médico pneumologista e venho apresentando extra-sistoles ventriculares frequentes com indicação de usar beta-bloqueadores. Já tentei atenolol e nadolol mas apresentei muita prostação e fadiga. Eu li que estes sintomas estão relacionados a penetração da droga no sistema nervoso central devido a lipossolubilidade. Gostaria de saber quais beta bloqueadores teriam menor efeito colateral quanto a estes efeitos no sistema nervoso central?? quais tem menor e maior lipossolubilidade?? para extra sistoles teria que ser mais seletivos?? Os mais novos seriam mais adequados”

Os betabloqueadores constituem uma classe terapêutica que apresenta como mecanismo de ação o bloqueio dos receptores beta-adrenérgicos, impedindo assim que a neurotransmissão chegue à célula efetora, por exemplo, nos vasos, coração ou rins. As diferenças entre eles relacionam-se à seletividade dos receptores beta-adrenérgicos, à lipossolubilidade e às ações vasodilatadoras. Os betabloquedores, em geral, têm indicações terapêuticas na hipertensão arterial, na angina e nas arritmias ventriculares e supraventriculares.

Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia indivíduos que apresentam extra-sístoles (sintomáticos) que não possuem uma cardiopatia associada devem ser tratados com betabloqueadores ou caso a cardiopatia seja a causadora da extra-sístole deve-se tratar a cardiopatia. Já os sintomáticos com cardiopatias podem fazer uso de betabloqueadores ou amiodarona (medicamento antiarrítmico).

No entanto, muitos indivíduos não querem usar os betabloqueadores devido à sensação de fadiga, prostação e bradicardia que podem causar. São drogas geralmente seguras e eficazes e a menor dose que alivia os sintomas deve ser utilizada, a fim de minimizar seus efeitos colaterais mais comuns. Tais efeitos são mais comuns no início do tratamento ou quando se usa doses elevadas desses medicamentos.

A solubilidade em lipídios e água de cada betabloqueador determina sua biodisponibilidade (quantidade do medicamento no organismo) e o perfil de efeitos colaterais. O propranolol, por exemplo, é muito lipossolúvel, enquanto o metoprolol tem lipossolubilidade apenas moderada. Os menos lipossolúveis como o atenolol, têm menor penetração nos tecidos nervosos e causam menos efeitos colaterais no SNC. Alguns dos principais betabloqueadores adrenérgicos utilizados na prática clínica são listados na tabela abaixo:

Medicamento

Cardiosseletividade

Solubilidade Lipídica

Atenolol

Sim

Baixa

Carvedilol

Não

Moderada

Labetalol

Não

Moderada

Metoprolol

Sim

Moderada

Nadolol

Não

Baixa

Pindolol

Não

Alta

Propanolol

Não

Alta


Agora, voltando à pergunta, temos que, teoricamente, os betabloqueadores que causariam menos efeitos colaterais seriam o atenolol e o nadolol, devido à baixa lipossolubilidade. Ambos já foram usados e continuaram a causar prostação e fadiga no usuário. Isso se deve a resposta pessoal de cada pessoa a determinados medicamentos e a susceptibilidade de cada um de sofrer determinados efeitos colaterais.

Os novos betabloqueadores (de terceira geração), tais como o carvedilol e o nebivolol são mais indicados para o tratamento da hipertensão arterial e não foi encontrada fonte segura que os indicasse para o tratamento dos sintomas da extra-sístoles. O carvedilol devido uma ação diferenciada no organismo causa menos efeitos colaterais e torna o fármaco mais tolerado que os betabloqueadores mais antigos. E, o perfil hemodinâmico favorável do nebivolol (preservação do débito cardíaco, redução da resistência periférica e melhora da função diastólica) parece ter benefícios clinicamente relevantes sobre a função sistólica e a diastólica prejudicadas, que são complicações frequentemente observadas na hipertensão.

Para pacientes com extra-sístole sintomática em quem betabloqueadores não resultaram em melhora sintomática, é indicado o uso de uma droga antiarrítmica (por exemplo, amiodarona, propafenona, sotalol, flecainida, verapamil). A droga antiarrítmica de escolha é variável e depende da presença ou ausência de doença cardíaca estrutural, particularmente doenças cardíacas coronarianas. Os fármacos antiarrítmicos suprimem as extra-sístoles ventriculares, mas podem também aumentar o risco de uma arritmia mortal, provocar o aparecimento de novos distúrbios do ritmo ou agravamento das alteraçöes pré-existentes, principalmente, quando a função ventricular encontra-se gravemente comprometida. Em conseqüência disso, devem ser utilizados com precaução e em doentes selecionados depois de efetuados estudos cardíacos sofisticados e após avaliação dos riscos.

Portanto, o médico cardiologista deve ser consultado para melhor avaliação do quadro clínico de extra-sístole e escolha do medicamento ideal, afim de minimizar os efeitos colaterais e melhorar a adesão do paciente ao tratamento.

Referências:
  • Philip J Podrid, MD.“Clinical significance and treatment of ventricular premature beats”Last literature review version 19.2: Maio 2011 | This topic last updated: Junho 17, 2011

  • Wilson S Colucci, MD.“Use of beta blockers in heart failure due to systolic dysfunction”Last literature review version 19.2: Maio 2011 | This topic last updated: Junho 15, 2009

  • Philip J Podrid, MD.“Major side effects of beta blockers”Last literature review version 19.2: Maio 2011 | This topic last updated: Junho 16, 2011

  • I Diretrizes do Grupo de Estudos em Cardiogeriatria da Sociedade Brasileira de Cardiologia;

  • Gizzi, Júlio César; Sierra-Reyes, Carlos A. “Ventricular extrasystoles: when and how to treat.” REBLAMPA Rev. bras. latinoam. marcapasso arritmia;

  • Bartolotto L. ET al “Betabloqueadores adrenérgicos” Rev Bras Hipertensão, 2009;

  • Tavares A. Plavnik F. “Inibidores do sistema simpático” UNIFESP e Hospital do Rim e Hipertensão — Fundação Oswaldo Ramos

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...>